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Acidentes domésticos em alta.

Temporada de arraia: quando o brinquedo é erguido perto de fiação elétrica, pode causar danos à distribuição de energia e acidentes graves ou fatais
Maioria dos acidentes acontece em casa e 90% poderiam ser evitados com a adoção de medidas simples

Criança cega. O ditado é mais certo do que se imagina, mesmo com a família por perto. Nas férias, então, é ainda mais difícil ter controle de todas as artimanhas infantis, principalmente quando os pais continuam trabalhando. Em casa, no ‘playground’, na rua, na praça ou em viagens, os cuidados devem ser constantes, independente de idade, classe social, do nível de educação dos pais e da infra-estrutura do espaço. Até porque cada criança se desenvolve de um jeito.

E, conforme a faixa etária, os acidentes se tornam mais ou menos recorrentes. Afogamento, sufocamento, queda, choque elétrico, envenenamento, queimadura, atropelamento. A qualquer momento algo parecido pode acontecer. No mês de julho, o número das ocorrências aumenta porque as crianças ficam mais tempo sozinhas, brincando na rua ou mesmo em casa. Mas é possível se cercar de cuidados e, pelo menos, minimizar os riscos de um trauma ou lesão séria.

De acordo com a coordenadora nacional da organização não-governamental (ONG) Criança Segura, Alessandra Françoia, o mais importante é as famílias tomarem uma atitude de prevenção. Prova disso é que os acidentes (lesões não-intencionais) são a principal causa de morte de crianças de um a 14 anos no Brasil, onde uma média de 6.000 crianças até 14 anos morrem e 140 mil são hospitalizadas todo ano, segundo o Ministério da Saúde.

No mundo, são 830 mil óbitos do tipo. No Brasil, em 2006, um total de 5.520 crianças morreram e mais de 137 mil foram hospitalizadas vítimas de acidentes de trânsito, afogamentos, sufocações, queimaduras, quedas, intoxicações e outras ocorrências.

No Instituto Doutor José Frota (IJF), hospital que recebe casos do tipo de Fortaleza e do Interior, em julho do ano passado foram atendidas 2.110 crianças de zero a 12 anos. Desses casos, 224 foram relativos à queda da própria altura, sete de queda de árvore, 35 de bicicleta, um de acidente no colégio, nove de violência doméstica e 26 atropelamentos.

Neste ano, em janeiro, mês também de férias, entre os 2.196 atendimentos, 105 foram de crianças que se queimaram e 25 de envenenamento com produtos químicos. No mês seguinte, fevereiro, quando as aulas começaram, os envenenamentos caíram mais de metade (foram 12) e as queimaduras diminuíram para 81.

É somente nessa hora que a criança percebe que brincadeira também é coisa séria. A pequena Daniely Oliveira Viana, de cinco anos, pensou que o lazer no quarto poderia ser divertido, mas não foi. Com os balanços ousados do primo, a menina foi arremessada a metros de distância da rede onde estava e bateu a cabeça na porta. De resultados, sangramentos por nariz e ouvidos, desmaio, cinco dias de internação no IJF e muito desespero da mãe, Lielza Oliveira, 32 anos.

No Brasil, a estimativa é que 90% desses acidentes poderiam ter sido evitados e de forma simples, como impedir que a criança entre na cozinha. “Importante é que os pais saibam que em cada idade a criança passa por uma fase e está mais sujeita a determinados acidentes”, frisa Alessandra.

Para ampliar a conscientização além do núcleo familiar, a ONG forma multiplicadores e incentiva a adoção de práticas educativas associadas ao currículo transversal nas escolas e a campanhas de trânsito, por exemplo. Alessandra Françoia destaca que é fundamental prevenir, mas sem comprometer a infância da criança ou impedi-la de brincar. “A questão é que isso tem que ser tratado como prioridade”, sugere. Estimativas mostram que a cada morte, outras quatro crianças ficam com seqüelas. De acordo com o governo brasileiro, cerca de RS 63 milhões são gastos no Sistema Único de Saúde com estes atendimentos.

VENTOS FORTES
Arraia causa prejuízo de RS 32 mil / mês

Pipa, papagaio, raia, arraia, quadrado. Não importa o nome que se dá. Empinar os brinquedos feitos com armação de madeira, papel seda e linha é hábito comum nas grandes e pequenas cidades. Em época de férias, o céu fica mais colorido com a multiplicação das arraias. O problema é que, quando são erguidos perto de fiação elétrica, podem causar sérios danos à distribuição de energia e provocar acidentes graves ou mesmo fatais.

Como no mês de julho os ventos já começam a ficar mais intensos, o risco de acidentes aumenta. Segundo levantamento da Companhia Energética do Ceará (Coelce), mais de 110 ocorrências provocadas pelo brinquedo foram realizadas em 2008 na Capital, com desligamento da energia no bairro inteiro. Além dessas, outras 200 ocorrências foram registradas no Estado.

Neste ano, as incidências somam 30 casos, somente no primeiro semestre. Os meses de maior ocorrência coincidem com as férias escolares, quando os casos em um mês chegam a superar os do semestre inteiro. Entre os problemas gerados estão choque elétrico e curto circuito, devido ao contato da pipa com a rede elétrica.

Por mês, a Coelce gasta, em média, RS 32 mil para fazer a limpeza desse serviço. A empresa também realiza mapeamento em Fortaleza, principalmente em bairros como Pan-Americano, Bom Sucesso, Barra do Ceará e Pirambu.

As ações fazem parte do projeto Taliban, que alerta para o uso correto de pipas. Na rede elétrica, as pipas podem provocar defeitos ao longo dos alimentadores, contribuindo para a saída de operação dos religadores das subestações e deixando consumidores com problemas de abastecimento. Além disso, se a linha das arraias estiver suja, molhada ou com cerol e encostar nos fios dos postes que não são encapados, ela pode conduzir energia elétrica. Dessa maneira, o choque tende a ser fatal, mesmo que se trate de um adulto.

O ideal é que a brincadeira com pipas ocorra sempre longe da rede de transmissão e distribuição de energia elétrica, sobretudo nos meses de ventos fortes (meados de julho ao início de novembro).

Locais abertos

Lugares abertos e espaços livres como campos de futebol, praias e parques são os mais indicados para soltar pipa. Além disso, se o objeto enrolar nos fios da rede elétrica, jamais crianças ou adultos devem tentar recuperá-lo. Se estiver chovendo, a brincadeira deve ser suspensa.

Dentro das atividades da I Olimpíada de Jogos Populares da Comunidade, que começaram neste sábado, dia 4, a Associação de Apoio aos Carentes de Pacajus (AACP) realiza uma série de atividades para crianças e jovens, No dia 31 de julho, às 8h30, haverá competição de pipa, teatro de fantoches e palestra e orientação sobre o uso correto das arraias.

Marta Bruno
Repórter

PROTAGONISTA
Crianças não brincam sozinhas no condomínio

Elizete Barros, 33, vendedora

Na residência da dona-de-casa Elizete Barros, 33 anos, a regra é clara: os filhos (Murilo, 9 anos, e Sabrina, 5) não saem sozinhos. Não vão para a casa de amigos e não brincam no condomínio sem a supervisão da mãe. Elisete sabe bem por que tantos cuidados. ´Ele já pegou uma cadeira, subiu e bebeu um vidro de amoxilina que estava em cima da geladeira. E minha menina mexe em tudo. Por isso tenho que ficar de olho´. Além disso, a vendedora conta que cria os filhos com base nos princípios bíblicos, ´que muita gente não entende´, na avaliação dela.
Fonte: Diario do Nordeste.


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